Aprender

O que vale na leitura de um livro, na entrega que acontece quando mergulhamos em seu universo, é o aprendizado. Já se disse que ler é aprender a morrer. Acho que o processo da leitura é, sim, aprender, mas um aprender sem complementos. A literatura promove um aprendizado intransitivo: aprender. Só isso.

Fiz essa introdução um tanto lisérgica para confessar um preconceito que cometi por algum tempo. Um preconceito que envolvia o escritor Cristovão Tezza. Aqui vai uma tentativa de me redimir com ele, mesmo que ele não esteja relacionado entre os meus cinco leitores contumazes (Alô… Isso foi uma piada. São seis.).

Há pouco tempo ganhei uma edição “vira-vira” do Tezza (Antes, explico… a edição vira-vira é uma  solução da BestBolso/Saraiva de livro de bolso dois-em-um: de um lado, um livro que, se virado de ponta-cabeça, revela um segundo livro do mesmo autor). No xvolume, dois romances: “Trapo” e “O filho eterno”. O segundo título é o mais conhecido do escritor. Mas desde seu lançamento senti certo receio a respeito dele por ser o tipo de obra que jamais gostei, como aqueles filmes melodramáticos de um casal feliz que, depois de algumas cenas de felicidade embebedante, descobre que a mocinha tem leucemia. Puro sofrimento para despertar lágrimas no espectador. Ficção baseada em fatos reais. Lixo. Não gosto. E por muito tempo não quis ler “O filho eterno”, por se tratar de uma ficção baseada na vivência do Tezza como pai de um menino com síndrome de Down. Achei que aquilo era o tipo de obra que, espremendo, cairiam lágrimas, e só isso, sem literatura que sobrasse daquele espremer.

 Por causa disso, optei pelo “lado B”: comecei a ler o “Trapo”. E a narrativa do Tezza me encantou, já que nunca tinha lido nada dele. Conta a história de um professor aposentado, amargo, niilista até o último fio, que se depara com uma mulher travestida de dona de pensão mas que mais se parece com uma garota (garota? Melhor seria “senhora”) de programa que invade seu apartamento, inunda sua vida com cafés e cigarros baratos e traz a tiracolo alguns originais de um adolescente que habitou sua pensão por alguns meses, chama-se Trapo e tem alguns manuscritos que aos poucos se revelam achados literários preciosos para o ex-professor de português. Hilário. Bem escrito. Honesto. Terminei a leitura ciente de que tinha encontrado no mar imenso de novos escritores brasileiros um que me tirava os pés do chão, que me acenava com uma narrativa inventiva, boa de se ler, com qualidade. Bacana.

Por conta dessa boa (primeira) experiência com o Tezza, cedi e resolvi, ainda meio relutante, ler o seu famoso “O filho eterno”.

Por ser uma narrativa que conta vivências do autor-narrador, se encaixa no que hoje se designa por “autoficção”: no mesmo compasso em que pode se considerar o narrado experiência real do autor, a sensação é que ele consegue transformar aquilo que viveu em experiência imaterial, universalizando-a. É a frase do Chekov (“Descrevo minha aldeia e descrevo o mundo”, ou algo parecido) em ação. E com uma honestidade e uma sensibilidade estonteantes. Há momentos na obra que beiram o sublime, no que respeita a prospecção honesta e de total entrega ao que existe de humano em nós mesmos (e aqui “humano” significa ter um lado bom e um ruim, algo inicialmente inconcebível para ser assumido por um pai em relação a seu filho).

Daí, aprendemos. Com ela, a literatura, aprendemos. Se não aprendemos, pelo menos passamos a saber que aquilo que trazíamos cristalizado como verdades não passa de pura contingência, de afirmações de que precisamos para nos sustentar num mundo que cada vez mais despreza aquilo de diáfano que a arte e a literatura trazem. Esse aprendizado intransitivo, insuspeitado, não-afirmativo e de difícil apreensão é o que emerge de cada experiência de leitura. A sorte de nós, leitores, é que há tantos livros, bons livros editados que é tarefa impossível lê-los todos numa só existência. Portanto, é certo que morrerei antes de ler todos os livros que desejo ler (São meus pequenos pecados de leitor, por exemplo, nunca ter lido “O vermelho e o negro” ou “Guerra e paz”. Um dia consigo tempo e paz para lê-los). Talvez por isso a máxima de que ler é aprender a morrer tenha um fiapo que seja de verdade.

Mesmo que seja verdade transitória. Mas essa discussão, quem sabe, pode ficar para outra encarnação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Site hospedado por WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: