O coração das trevas

Já aconteceu várias vezes de você topar com um livro, namorá-lo, mas no final deixá-lo para uma outra oportunidade, às vezes tendo lido uma meia dúzia de páginas? Já aconteceu disso ocorrer várias vezes com o mesmo livro? O que acontece é que o livro acaba ganhando aquele espaço da sua estante reservado normalmente aos já lidos, e ali fica esquecido por anos.

xMinha experiência com “Coração das trevas”, do Joseph Conrad, foi algo semelhante. O namoro, as tentativas, as abordagens… Deus do céu, acho que há mais de quinze anos flerto com esse livro, sempre agendando mentalmente que nas próximas férias, que no próximo fim de semana, que no próximo ano… E a leitura fica sempre para depois.

Pois bem: passei uns dias dessas férias curtas em São Paulo. Antes de fazer as malas, prometi não levar livro algum, pois iria relaxar, “des-pensar” a vida, coçar o oco do cérebro, sei lá, tomar chá de Ana Maria Braga, zerar o QI… Só que não resisti. Eu e as livrarias temos um caso de amor patológico. Eu caí na asneira de passar na frente de uma. Não resisti e entrei. E logo na entrada… que livro me recepcionava? Aquele (esse) do Conrad.

Na verdade se trata de uma novela. Tem pouco mais de cem páginas. Na edição da Companhia de Bolso ainda incluíram no volume outro conto do Conrad e um texto que contextualiza a novela na História, escrito pelo Luiz Felipe de Alencastro. Mas desculpa aí, Alencastro: só o Coração das trevas já bastaria pra dar o recado.

Conrad consegue manter o fio da tensão esticado desde a primeira até a última frase da longa fala de Marlow. A estrutura do livro é aquela super utilizada, sobretudo pelos escritores do século XIX: um sujeito que escuta de outro uma narrativa ocorrida num lugar distante. Assim, a narrativa é, logo no início do livro, passada para Marlow, um marujão que narra sua trajetória, sua jornada rumo a um mundo que se assemelha aos próprios pesadelos: “foi como se, em vez de estar rumando para o centro de um continente, eu estivesse prestes a partir com destino ao centro da Terra”.

Ou para o “próprio centro”, o inferno particular, o epicentro da nossa angústia, Marlow poderia completar. Mas não completou: deixou para nós, leitores babões, feito eu, que saímos da aventura de mais uma grande narrativa como quem sai de uma experiência extrasensorial. E é, pois não?

(Aliás, o século XX não foi capaz de gerar aquelas narrativas grandiosas, como o século XIX o fez. Gerou outras, com outras características. Dizem os especialistas que essa é uma tendência literária da contemporaneidade. Mas eu ainda sinto saudade de, por vezes, pegar um “romanção” desses. Gosto de escritores que me pegam pela mão e me levam para lugares estranhos, obscuros. Isso é outra discussão…).

Ah, sim: a imagem é do filme “Apocalipse now”, filmado em 1979 por Francis Ford Coppola, livremente baseado do livro de Conrad (Não tem no Netflix: nem sempre a pós-modernidade nos é favorável)

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